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O Vazio do Rei: Uma Jornada por Eclesiastes 1 ao 4 e os Dias Atuais


Há momentos na vida em que paramos e nos perguntamos: “Para que tudo isso?”. Essa pergunta ecoa na alma humana há milênios. Foi ela que moveu o homem mais sábio que já existiu, o rei Salomão, a escrever um dos livros mais profundos e perturbadores da Bíblia: Eclesiastes.


Neste ensaio, convido você a mergulhar na mente de Salomão, a refletir sobre a sua busca incansável pela paz, pela felicidade e pelo sentimento de realização, e a conectar esses pensamentos com o turbilhão de emoções e acontecimentos do mundo moderno.


A Rotina que Aprisiona: A Angústia de Eclesiastes 1


Salomão começa sua jornada olhando para o mundo ao redor e descrevendo o ciclo interminável da natureza e da vida humana. Ele observa o trabalhador que sai para a lida, volta para casa, e no dia seguinte recomeça. O sol nasce e se põe, apenas para nascer novamente. Os rios correm para o mar, mas o mar nunca transborda; eles simplesmente fazem o mesmo percurso, eternamente.


Naquele momento, Salomão não via poesia na criação; ele via tédio. Não havia prazer em viver dias que, para ele, eram monótonos e repetitivos. Ele não achava sentido naquilo que hoje, em uma analogia moderna, chamaríamos de Matrix: viver as mesmas coisas, cumprir o mesmo roteiro, sem nunca questionar se há algo além.


Ele se perguntava: como as pessoas não enjoavam? Como não percebiam que o que foi, será; o que aconteceu, acontecerá novamente? Para ele, não havia nada de novo sob o sol. E quando alguém gritava "Veja, tenho algo novo!", Salomão advertia: não se animem, isso já existia muito antes de nós.


Em sua introspecção, ele diz: "Eu, o rei de Israel, investiguei tudo o que existe. Explorei cada canto desta terra, acumulei sabedoria e conhecimento, e a conclusão é que tudo é vazio. É como nadar contra a maré."


Ele percebe uma verdade dura: o pau que nasce torto, morre torto. Não há como endireitá-lo. Por mais que o homem se esforce, há coisas que estão além do seu controle. E a conclusão do primeiro capítulo é um soco no estômago de qualquer intelectual: "Quanto mais sabedoria, mais sofrimento; quanto mais conhecimento, mais dor."


Aqui, Salomão já nos adianta que a busca intelectual, por si só, não é a resposta para a alma.


O Festim do Vazio: A Crise de Eclesiastes 2


Se o conhecimento não trouxe paz, Salomão decide tentar outro caminho. Ele pensa: "Vamos lá! Vamos nos divertir! A vida é um sopro, vamos aproveitar!"


Sob a ótica atual, seria o equivalente ao "Viva intensamente, você só vive uma vez". Mas Salomão não era um qualquer; ele era o rei mais poderoso de sua época. Suas festas eram glamorosas, com as melhores roupas, as melhores comidas e as mulheres mais lindas. E o que ele descobriu? Que tudo aquilo também terminava em vazio.


Ele chama isso de loucura. "Não vale a pena", conclui.


Desesperado, ele decide ir mais fundo. "E se eu experimentar os melhores prazeres? Se eu construir o meu império?" Ele bebeu seus melhores vinhos, construiu casas deslumbrantes, criou jardins paradisíacos, sistemas de irrigação inovadores. Comprou servos, acumulou rebanhos, juntou ouro e prata, trouxe os melhores músicos e, para completar, conseguiu as mais lindas mulheres.


Salomão tinha tudo.


Tudo o que seus olhos desejaram, ele não negou. Tudo o que seu coração pediu, ele concedeu. Ele ultrapassou todos os seus antepassados em riqueza e sabedoria. Mas havia uma coisa que todo aquele ouro, poder e prazer não podiam comprar: a sensação de realização.


O vazio persistia.


Ele então reflete sobre a sabedoria versus a insensatez. Ele conclui que a sabedoria é melhor que a insensatez, assim como a luz é melhor que as trevas. O sábio sabe para onde vai; o tolo anda em escuridão. Mas então vem o golpe final: ambos morrem. O destino do sábio é o mesmo do tolo. Com o tempo, ambos são esquecidos.


É nesse momento que Salomão entra em profunda crise. Ele passa a odiar a vida. Ele olha para seus palácios, suas conquistas, seus haréns, e sente nojo. "Do que adiantou? Eu vou morrer e não vou levar nada disso. Tudo o que construí com meu esforço ficará para alguém que nunca fez nada por isso. É um absurdo!"


Ele descreve o trabalhador compulsivo: trabalhamos como condenados, de sol a sol, sem descanso, para deixar tudo para quem nunca suou. É uma revolta existencial.


Muitos de nós, hoje, vivemos essa mesma inquietação. Conquistamos o carro, a casa, a promoção, e então nos sentamos no sofá e pensamos: "E agora? É só isso?"


Enquanto isso, o insensato festeja. Bebe, trai, ignora os conselhos, vive na superfície, e ainda assim, muitas vezes, parece prosperar. E o sábio, ao tentar ajudar esse insensato, só encontra dor. É como nadar contra a maré nesse oceano imenso de injustiças.


O Tempo e a Eternidade no Coração: A Sabedoria de Eclesiastes 3


Após tanta dor e reflexão, Salomão amadurece. Ele começa o terceiro capítulo com um dos textos mais belos e conhecidos da humanidade: "Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de colher; tempo de matar e tempo de curar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de abraçar e tempo de se afastar..."


Ele compreende, enfim, que há uma ordem divina nas coisas. Deus fez tudo apropriado ao seu tempo. Mas ele também diz algo intrigante: "Deus colocou a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez do começo ao fim."


Em outras palavras: fomos feitos para o eterno, mas vivemos no temporário. Por isso a insatisfação. Por isso o vazio. Nada aqui embaixo preenche algo que foi desenhado para o infinito.


Salomão entende que não adianta lutar contra o fluxo da vida. O que Deus fez, está feito. Não há como mudar. Então, ao invés de apenas questionar, ele decide adorar e aproveitar os frutos do seu trabalho.


Ele olha para a política e vê corrupção. Olha para a justiça e vê mais corrupção. Ele conclui que Deus julgará o justo e o injusto, pois há um tempo para tudo. Ele reflete sobre a mortalidade: "Os homens e os animais têm o mesmo fôlego; ambos viemos do pó e ao pó voltaremos."


A grande lição de Eclesiastes 3 é: não se desespere. Há um tempo certo para cada coisa. Viva o presente, honre a Deus, e aproveite os frutos do seu trabalho, pois isso é presente Dele.


A Opressão e a Solidão: A Realidade de Eclesiastes 4


No quarto capítulo, Salomão volta seus olhos para as injustiças do mundo. Ele vê as lágrimas dos oprimidos, e percebe que eles não têm consolo. Vê as vítimas inocentes sendo esmagadas por seus opressores, sem que ninguém faça nada.


Diante desse cenário, ele faz uma afirmação de uma profundidade sombria: "Por isso considerei os mortos mais felizes do que os vivos."


E ele vai além: "Melhor do que ambos é aquele que ainda não nasceu, que não viu as maldades que se fazem debaixo do sol."


Essa reflexão atravessa os séculos e chega aos nossos dias com uma atualidade assustadora. Vivemos cercados por violência—seja ela física, verbal ou virtual. Vemos injustos prosperando e justos sendo esmagados. Vemos pessoas sendo atacadas por serem honestas, enquanto o corrupto se sobressai.


Se Salomão vivesse hoje, veria crimes online, discursos de ódio, desonestidade generalizada. E certamente repetiria: "Melhor é aquele que não nasceu." É a constatação de que o mundo, entregue a si mesmo, é um lugar cruel.


Mas ele não para no desespero. Ele observa um homem solitário, sem família, sem amigos, que trabalha como um louco, dia e noite, sem nunca parar para perguntar: "Para quem estou fazendo isso?"


Salomão conclui que isso é absurdo. E apresenta uma das verdades mais belas do livro: "Melhor é serem dois do que um." Se um cair, o outro levanta. Se dois dormirem juntos, se aquecerão. O cordão de três dobras não se rompe facilmente.


Para nós, hoje, a escolha das companhias é vital. Em um mundo cheio de falsidade, quem é o amigo que realmente estenderá a mão? Quem é o sábio que te ajudará a levantar, e quem é o insensato que te empurrará para permanecer no chão?


Escolha os sábios. Fuja daqueles que te induzem à embriaguez, à traição e à perda dos seus valores. Fuja do modismo e da comodidade. "Melhor é o jovem pobre e sábio, do que o rei velho e tolo, que não aceita mais conselhos."


Conclusão: A Sabedoria de Temer a Deus


Salomão viveu entre 1010 a.C. e 931 a.C. Foi filho de Davi, o terceiro rei de Israel. Teve poder, mulheres, dinheiro, inteligência e realizou todos os seus desejos. E no final de tudo, depois de provar que o vinho não sacia, o ouro não preenche e o prazer não satisfaz, ele nos deixa a chave para a vida.


"Tema a Deus e guarde os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem."

O tempo passa. Nós envelhecemos. Tudo o que é passageiro se desfaz. O passado já se foi, o futuro se tornará passado, e estamos aqui, navegando nesse oceano.


Não corra atrás do vento. Você está nadando contra a maré.


Use este texto como um convite à reflexão. Pergunte a si mesmo: O que pode me fazer sentir realizado? O que pode me dar paz?


Que a resposta não seja encontrada nas vaidades desse mundo, mas naquilo que é eterno. Viva com calma, com sabedoria e com humildade. Não há nada melhor do que sorrir ao lado dos sábios, ao cair da noite, sabendo que, apesar de tudo, há um propósito.


Tema a Deus. Ele é real. Ele ocupa todo o universo. O que a nossa mente minúscula pode fazer para mudar o que há de vir?


Aquieta-te. E vive.


Por Ketty Williams

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