A Feira das Cordas Invisíveis
- Ketty Williams

- 1 de abr.
- 4 min de leitura

Diziam que a Cidade de Vidro era o lugar mais livre do mundo. Ali, desde cedo, todos aprendiam a repetir: “Eu mando em mim”.
As ruas tinham vitrines acesas noite adentro, cafés cheios, música em cada esquina. Havia também um detalhe comum: todos usavam no pulso uma pequena argola, lisa e elegante, como se fosse um adorno. Perguntar sobre ela soava estranho.
— É só um símbolo — diziam. — Um lembrete de que ninguém me prende.
Numa manhã de sol pálido, um peregrino entrou na cidade. Ao cruzar o portão, ouviu uma risada.
Um homem bem vestido apontava para um grupo que caminhava até uma pequena capela. Eles também tinham argolas no pulso, mas carregavam no peito um fio claro, discreto, como uma pequena corda de tecido.
— Os escravos do Evangelho! — zombou o homem. — Ainda precisam de Deus para viver.
O peregrino não respondeu. Preferiu observar.
Na praça central, acontecia a Feira das Cordas Invisíveis. Barracas ofereciam cordas finas e grossas, perfumadas, brilhantes. Cada uma vinha com um rótulo.
Num canto, copos e garrafas formavam uma pirâmide. O letreiro dizia: “Esquecimento em doses”. O vendedor entregava a corda da Bebida; ela parecia líquida e fresca.
— Amarra só um pouquinho — sorria. — É para relaxar. Você desamarra quando quiser.
Perto dali, uma tenda de luz baixa escondia telas que todos conheciam.
— Esta é a corda do Olhar — sussurrava. — Ninguém precisa saber. Consome pouco, alivia muito.
Mais adiante, uma barraca soltava uma fumaça doce. A corda do Cigarro era cinza, macia, com cheiro de conforto antigo.
— É companhia — dizia a atendente. — Um intervalo. Você controla.
E, no centro da praça, num palco elevado, o maior vendedor de todos oferecia correntes douradas, polidas, que refletiam rostos e luzes. Seu letreiro trazia uma única palavra: “Mais”.
A Corrente do Dinheiro prometia segurança, respeito e futuro. Quem a provava saía com pressa, como se o tempo tivesse ficado menor.
O peregrino percebeu algo inquietante: quando alguém amarrava a corda ao pulso, ela desaparecia aos olhos. Mas não desaparecia ao movimento. Aos poucos, a pessoa passava a andar dentro de um certo raio e sempre retornava ao mesmo lugar, à mesma promessa.
No fim da feira, havia um espelho grande, alto como uma porta. Sem música, sem vendedor. Apenas uma placa:
“Veja”.
As pessoas desviavam o rosto.
— Espelho é coisa de gente culpada — disse alguém, apressando o passo. — Quem é livre não precisa se olhar.
O peregrino parou diante do espelho e viu o que a cidade recusava: cada argola era um elo. De cada elo saía uma linha que se estendia até uma barraca, uma garrafa, uma tela, uma fumaça, um cofre. Linhas cruzadas formavam uma teia. E, por trás dela, havia cansaço.
Um homem apareceu ao lado, cordial.
— Não se prenda a isso — aconselhou. — Aqui a gente é livre. Preso é quem se mete com religião.
O peregrino apontou para o pulso dele.
— E essa linha?
O homem olhou, não viu nada e riu.
— Eu paro quando eu quiser.
Mesmo assim, seus pés recuaram um passo, como se algo o puxasse. Ele fingiu que não percebeu e foi embora.
O peregrino seguiu até a capela. Era simples. Na porta, uma mulher varria o chão. Seus olhos eram cansados, mas havia neles uma calma firme.
— Vocês não são presos? — perguntou ele, sem ironia, apenas buscando entender.
Ela apoiou a vassoura.
— Eu já fui presa de muita coisa — respondeu. — Só mudei de Senhor.
Ele notou o fio claro no peito dela.
— E isso não arrasta?
— Isso me lembra para onde eu volto quando me perco — disse a mulher. — Não é uma corda para me dominar. É um laço para me sustentar.
Na mesma hora, um homem entrou cambaleando, com cheiro de bebida e o rosto de quem já se cansou de prometer a si mesmo.
— Eu disse que era só hoje — murmurou. — Eu disse que eu controlava.
A mulher não o humilhou. Deu-lhe água, um banco e presença.
O peregrino entendeu o contraste: do lado de fora vendia-se controle; ali dentro praticava-se verdade.
Naquela noite, uma tempestade caiu sobre a Cidade de Vidro. As luzes falharam. A música parou. E, quando as vitrines se apagaram, as cordas invisíveis começaram a pesar.
Mãos tremiam buscando fumaça. Corpos corriam para a barraca do esquecimento. Olhares desesperados procuravam qualquer tela acesa. E muitos se agarraram às correntes douradas como se fossem salva-vidas.
No escuro, alguns finalmente perceberam o que chamavam de liberdade.
— Se eu mando em mim — sussurrou uma jovem — por que eu não consigo soltar?
O peregrino voltou ao espelho. Pessoas se aproximaram devagar, como quem se aproxima de um diagnóstico. Um homem, que antes havia zombado, tocou o pulso, procurando a linha.
— Eu não sabia — confessou.
— Algumas prisões se disfarçam de escolha — respondeu o peregrino.
Alguém apontou para a capela.
— E eles? Também não são escravos?
O peregrino olhou para a porta pequena, onde uma luz simples permanecia acesa apesar da chuva.
— Eles dependem — disse. — Mas repare no fruto. Há dependências que roubam a vontade. E há uma dependência que, com o tempo, devolve a vontade.
Quando amanheceu, a feira reabriu. Os vendedores sorriram como sempre. Muitos correram de volta, como sempre.
Mas alguns, não.
Alguns encararam o espelho sem desviar o rosto. Alguns pediram ajuda para desatar o que os puxava. Alguns entraram na capela e descobriram que depender de Deus não era apagar a liberdade, mas começar a reconstruí-la, por dentro.
E, quando ouviram novamente “escravos do Evangelho”, não responderam com raiva. Apenas disseram, com serenidade:
— Todo mundo serve a algo. A diferença é se esse algo te consome… ou te refaz.
Moral: A escravidão mais perigosa é a que se disfarça de liberdade. E a dependência mais libertadora é aquela que nos devolve para casa.
Um breve prefácio
Esta fábula nasceu como consequência de um sonho que tive, após refletir sobre como muitas pessoas se tornam escravas daquilo que chamam de liberdade. Adormeci com esse pensamento, então, um sonho despertador veio até mim.
Não sei se foi apenas um sonho. Mas há ideias que não vêm de nós… apenas nos encontram.




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