Rowan e a Guardiã dos Sonhos
- Ketty Williams

- 23 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Havia, nos confins de uma terra cinzenta e coberta por névoas persistentes, um vilarejo chamado Ravenwood, onde as casas eram baixas, os telhados cansados e os sonhos, raros como o sol no inverno.
Ali vivia Rowan, uma jovem de semblante grave e olhos profundos, como quem carrega mais pensamentos do que anos.
Rowan nascera pobre e crescera entre paredes frágeis e silêncios longos. Seus pais, outrora cheios de planos, haviam aprendido a viver sem esperar nada do amanhã. Contentavam-se com o pouco pão à mesa e com a repetição dos dias, pois haviam desistido de sonhar, e, quando se perde o hábito de sonhar, perde-se também o de lutar.
A jovem, porém, era feita de outra matéria. Seu coração ardia com desejos que não cabiam em Ravenwood. Sonhava em terras distantes, em ruas movimentadas, em uma vida onde pudesse oferecer aos pais mais do que resignação. Mas sempre que ousava falar disso, encontrava apenas olhares piedosos e sorrisos cansados, como quem escuta uma criança falar de estrelas inalcançáveis.
Os rapazes do vilarejo a observavam com encanto silencioso, pois Rowan já tinha idade para casar. Ainda assim, ela não desejava nenhum deles. Não por soberba, mas porque sua alma era vasta demais para aquelas fronteiras estreitas. As moças, por sua vez, evitavam-na. Diziam que sua aparência era sombria, que seus pensamentos eram estranhos demais, e assim Rowan caminhava sozinha entre os vivos.
Enquanto algumas casas celebravam em abundância, pois ainda guardavam sonhos, a de Rowan conhecia apenas o necessário. Ela comia o que havia, vestia o que resistia ao tempo e, mesmo assim, sentia-se cada dia mais cansada, como se algo lhe sugasse a força vital.
O que Rowan não sabia era que, na floresta próxima, vivia uma bruxa antiga, curvada pelo ódio e sustentada pelo sofrimento alheio. Alimentava-se da dor como outros se alimentam de pão. Sempre que percebia uma alma em desalento, aproximava-se disfarçada, ora como um gato de olhos atentos, ora como um cão de passos mansos.
Muitas vezes, ao voltar do trabalho ou ao recolher lenha, Rowan encontrava esses animais. Acariciava-os por instinto, buscando um afeto que lhe faltava. E, a cada toque, sua energia lhe era roubada, gota a gota, enquanto a bruxa se fortalecia. Rowan tornara-se, sem saber, o banquete mais farto da floresta.
Com o passar do tempo, o cansaço tornou-se insuportável. Seus sonhos começaram a afundar como pedras em águas profundas. Até que, certa noite, ela decidiu desistir. Aceitaria seu destino, casaria com alguém do vilarejo e enterraria para sempre aquilo que jamais lhe fora permitido viver.
Mas o destino, quando encontra resistência verdadeira, às vezes responde.
Certo dia, enquanto recolhia lenha entre árvores antigas, uma coruja branca de olhos dourados pousou sobre um tronco caído.
— Rowan, disse a ave, com voz clara como sino antigo.
A jovem estremeceu.
— Como pode falar? Quem é você?
— Sou um Guardião dos Sonhos, respondeu a coruja. — Protejo aqueles que resistem ao sofrimento. Teu pesar está afogando teus sonhos, e eles são o bem mais precioso que possuis.
Rowan sentiu os olhos arderem.
— Mas estou perdendo as forças… não consigo mais sustentar o que desejo.
— Isso acontece por causa da bruxa, disse a ave. — Ela foi minha amiga outrora, mas desejou ver o futuro por ganância. Tentou tomar meu lugar e, por isso, foi amaldiçoada. Agora vive sugando a energia dos que sofrem, para que jamais sonhem novamente.
— Como posso detê-la? — perguntou Rowan.
— Não alimentando seu poder, respondeu o Guardião. — Quando deixares de sofrer, ela nada terá para colher. Não pode ser morta, mas pode ser expulsa da tua vida.
Naquela noite, Rowan tomou uma decisão que mudaria tudo.
Voltou para casa e anunciou que partiria. Seus pais não acreditaram. Disseram que o mundo era cruel, que sonhos não enchem mesas. Ainda assim, ela partiu. Chegou a uma grande cidade, onde carruagens cruzavam as ruas e o ar cheirava a possibilidades. Trabalhou para um velho chapeleiro, homem solitário e justo.
Quando ele morreu, deixou-lhe tudo o que possuía. Rowan construiu sua vida com trabalho e coragem. Casou-se com um homem simples, e juntos fizeram prosperar aquilo que receberam.
Anos depois, voltou a Ravenwood para buscar seus pais. E, ao vê-la, algo neles despertou. Pela primeira vez em muito tempo, sonharam outra vez.
Quanto à bruxa, dizem que nunca mais foi vista naquela floresta. Pois onde não há sofrimento cultivado, nenhuma sombra consegue permanecer.
E assim se conta, ainda hoje, que os sonhos não morrem por serem grandes demais, morrem apenas quando deixamos de defendê-los.
Por Ketty Williams




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