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EM QUESTÃO #01 - Marcela, O que existe por trás de uma história?

Marcela Bissoli Mauri - Escritora, especialista em Língua e Literatura e pós-graduada em Jornalismo Digital.
Marcela Bissoli Mauri - Escritora, especialista em Língua e Literatura e pós-graduada em Jornalismo Digital.

Toda história começa em algum lugar.


Às vezes, em uma experiência. Em uma lembrança. Em uma conversa. Em uma dor. Em um sonho. Às vezes, começa simplesmente com o encontro de alguém com um livro.


Para inaugurar o EM QUESTÃO, conversei com Marcela Bissoli Mauri, escritora, especialista em Língua e Literatura e pós-graduada em Jornalismo Digital. Marcela já possui quatro livros publicados e caminha para sua quinta publicação.


Mas, antes da escritora que hoje publica romances e outros trabalhos, existe uma menina que encontrava na biblioteca municipal o seu lugar preferido no mundo.


E talvez seja justamente aí que esteja uma das questões mais interessantes desta primeira conversa: o que existe antes de uma pessoa se tornar aquilo que reconhecemos nela?


Marcela nos conta.


1. Para começarmos, quem é a Marcela por trás da escritora?


Marcela: Sou Marcela Bissoli Mauri, escritora e especialista em Língua e Literatura, e mais recentemente pós-graduada em Jornalismo Digital.


Antes de tudo sou apaixonada por livros. A ficção tem um lugar especial em meu coração.


Sou casada, mãe da Beatriz, uma linda adolescente, e também tutora de 2 gatos que deixam nossa casa ainda mais feliz. Sou professora de inglês da rede CCAA há 20 anos, um trabalho que me traz muita alegria. Quem me conhece sabe eu amo estudar. Estou sempre aprendendo algo novo.


Em meus momentos de lazer, estou sempre em meio às palavras, seja como leitora, seja como escritora. Meu gênero textual preferido é o romance, os leio avidamente, o que fez a minha escrita refletir um pouco de todas as histórias para as quais fui transportada através das páginas dos livros.


2. Quando você percebeu que a escrita poderia fazer parte da sua vida? Você sempre teve vontade de escrever ou isso surgiu em algum momento específico?


Marcela: Desde criança eu já tinha grande paixão pelos livros, porém tudo ficou mais evidente por volta dos meus 10 anos de idade. Eu morava na cidade de São Gabriel da Palha, estudava no turno matutino e, logo após chegar em casa e almoçar, eu ia para a Biblioteca Municipal, que ficava bem pertinho da minha casa.


Eu simplesmente amava aquele lugar. Só de chegar e poder respirar aquele ar carregado do cheiro de livros, transformava qualquer simples dia em extraordinário. Enquanto as outras crianças iam para a rua brincar, eu ia ficar entre os livros, meu refúgio preferido.


Com o passar do tempo, eu passei a auxiliar a bibliotecária, pois sabia onde ficava absolutamente tudo, até ajudava alunos de diversas séries e idades a encontrar o assunto a ser pesquisado nos livros. Eu não via o tempo passar.


O mais curioso disso tudo é que não tive incentivo dos meus pais para tal paixão, ela simplesmente nasceu! Nunca nem sugeriram a ideia de “gastar” dinheiro comprando livros.


Dentre todas as histórias lidas na infância, uma em especial tinha um lugar em meu coração, se chamava “O pequeno vampiro”. Eu a lia e relia, e como se não bastasse, tomava-o emprestado quase todas as semanas para levá-lo para casa.


_Por que vai levar o mesmo livro novamente? , perguntava Tia Luzia, a tão querida bibliotecária.


_Como não posso comprá-lo, tê-lo comigo por uns dias me traz a sensação de que ele me pertence, e isso me basta. Ir dormir e saber que ele está ali me esperando para o próximo dia me deixa muito feliz. Por isso vou levá-lo novamente.


Com o passar dos anos, passei o início da vida adulta um pouco afastada dos livros, mas quando retornei, a escrita veio junto, mas nunca tive pretensão de publicar nada. Eram textos soltos, mas sempre com uma pontinha de ficção.


No ano de 2020 e 2021, vivenciando a pandemia histórica da qual fizemos parte, me vi com um manuscrito de vários capítulos, retratando, de forma leve, tudo o que eu e minha família vínhamos aprendendo naquele período de isolamento, todas as dores e todos os aprendizados.


Daí nasceu o primeiro livro, publicado em 2021, “Memórias de uma pandemia”, uma não-ficção, o que considero um marco em minha vida e o início da minha carreira de escritora.


De lá para cá já estou caminhando para a 5ª publicação.


Em 2023 lancei “Marcados pelo coração”, meu primeiro romance, história que conquistou muitos leitores pelo Brasil afora.


Em 2024 veio a publicação de “12 erros de português mais comuns na escrita”, trazendo de forma leve e direta os erros mais cometidos pelos brasileiros, o que foi por mim observado durante os anos que trabalhei como revisora textual para escritores e editoras.


Em 2025, mais um romance, “Lembranças de você”, uma linda história que tem como pano de fundo a vinda dos imigrantes italianos para o Brasil. Um livro escrito com o coração.


Atualmente estou há mais de 1 ano no processo de escrita do próximo livro, que será publicado em 2027, “Entre livros e silêncios”, uma história que se passará em Portugal e será um romance de conforto, gênero textual que está em alta no mercado literário.


3. Você é formada em Letras e possui pós-graduação em Língua e Literatura. De que maneira sua formação influenciou sua relação com a escrita e com a literatura?


Marcela: A formação em Letras e Literatura exerce, sem dúvidas, um papel profundo na minha trajetória como escritora.


Talvez a maior contribuição seja o refinamento da capacidade analítica. Com conhecimento mais profundo da gramática normativa da língua e intertextualidade, bem como recursos e técnicas estudadas na literatura, o curso te ensina a “Ler nas entrelinhas”.


Para o escritor, isso se traduz em um olhar mais rigoroso sobre a própria produção. A capacidade de analisar criticamente o que se escreve permite uma revisão muito mais profunda e profissional, elevando a qualidade final da obra antes mesmo que ela chegue às mãos de um editor.


Em resumo, minha formação me deu o olhar clínico. Hoje escrevo com mais consciência, sabendo exatamente o peso de cada palavra que coloco no papel, transitando entre diferentes registros, da norma culta ao coloquialismo, com mais precisão.


4. O que normalmente desperta sua criatividade? Uma experiência, uma conversa, uma pessoa, uma música, um lugar, uma memória ou simplesmente uma ideia?


Marcela: Meu processo criativo de escrita se dá, primeiramente, com um ambiente tranquilo, o que é mais do que uma preferência; é uma necessidade. É nesse espaço de serenidade que as vozes dos personagens começam a sussurrar, os enredos se desdobram e os cenários ganham vida.


A ausência de ruídos externos permite que a melodia interna da história se manifeste, sem interrupções, em sua plenitude. É ali, na quietude, que eu me conecto com a essência do que desejo transmitir, transformando pensamentos dispersos em capítulos coesos e emoções em palavras.


Outro ponto crucial para mim é a escrita à mão, que surge como um ritual, um elo tangível com a arte de contar histórias. O deslizar da caneta sobre o papel não é apenas um ato mecânico, mas uma extensão do pensamento, um fluxo contínuo que conecta a mente ao coração da narrativa.


Cada traço, cada palavra manuscrita, carrega consigo uma energia particular, uma intimidade que a digitação, por vezes, não consegue replicar. É um processo que convida à paciência, à reflexão e a uma conexão mais profunda com o texto que está sendo gerado.


E de onde vêm as sementes dessas histórias? Da vida, da riqueza inesgotável do cotidiano.


Um olhar trocado no café, uma conversa ouvida ao acaso, a beleza de um gesto simples, a complexidade das relações humanas, sonhos, tudo se transforma em matéria-prima. Com carinho e sensibilidade, captamos esses fragmentos da existência e os tecemos em tramas de amor, superação e descoberta. As histórias do dia a dia, com suas alegrias e desafios, são o solo fértil onde os romances ganham raízes, florescem e se tornam espelhos da própria experiência humana.


Assim, no silêncio, com o lápis em punho e o coração aberto para as nuances da vida, a romancista desvenda mundos, cria laços e, acima de tudo, celebra a arte atemporal de contar histórias de amor.


5. De onde costumam surgir as histórias que você escreve? Existe algum padrão no seu processo criativo ou cada história nasce de uma maneira diferente?


Marcela: As sementes dessas histórias vêm da vida, da riqueza inesgotável do cotidiano. Um olhar trocado no café, uma conversa ouvida ao acaso, a beleza de um gesto simples, a complexidade das relações humanas, sonhos, tudo se transforma em matéria-prima.


Com carinho e sensibilidade, captamos esses fragmentos da existência e os tecemos em tramas de amor, superação e descoberta.

Perspectiva de Ketty

Uma das coisas que mais me chamou atenção na história da Marcela é que sua relação com a literatura não parece ter começado com a intenção de ser escritora.


Começou antes. Começou com uma menina que encontrava na biblioteca aquilo que talvez nem soubesse nomear naquele momento: pertencimento.


Enquanto outras crianças estavam na rua, ela escolhia os livros. Não porque alguém tivesse determinado que deveria ler, nem porque tivesse recebido uma formação específica para isso. Segundo seu próprio relato, aquela paixão simplesmente nasceu.


E existe algo muito significativo nisso. Acredito que, muitas vezes, olhamos para uma pessoa já formada, para o escritor publicado, para o professor, para o pesquisador, para o artista, e esquecemos de perguntar o que existia antes daquela identidade.


No caso da Marcela, havia uma criança que queria ter um livro. Não apenas lê-lo. Tê-lo consigo.


A passagem em que ela conta que pegava repetidamente O pequeno vampiro emprestado porque não podia comprá-lo me parece especialmente simbólica. Ela sabia que o livro não era realmente seu, mas tê-lo por alguns dias produzia a sensação de pertencimento. E talvez isso revele algo essencial sobre o que os livros podem representar para algumas pessoas: eles não são apenas objetos que carregam histórias. Podem se tornar lugares onde alguém se sente em casa.


É interessante perceber também que a escrita só veio depois. Primeiro veio a leitora. Depois, a experiência. Depois, os textos. E somente mais tarde surgiu a publicação.


Isso me faz pensar que talvez a escrita não comece necessariamente quando alguém coloca uma palavra no papel. Talvez ela comece muito antes, quando uma pessoa passa a observar o mundo de determinada maneira.


A própria Marcela confirma essa percepção quando fala sobre seu processo criativo. Suas histórias não parecem nascer exclusivamente de grandes acontecimentos. Elas podem surgir de um olhar trocado em um café, de uma conversa ouvida por acaso, de um gesto simples ou da complexidade das relações humanas.


Ou seja, para ela, escrever parece estar intimamente ligado a prestar atenção. E talvez seja justamente isso que diferencie a experiência de simplesmente viver da experiência de transformar a vida em matéria literária.


Todos nós atravessamos situações, conhecemos pessoas, ouvimos conversas e acumulamos memórias. Mas o escritor desenvolve, ou talvez cultive, uma espécie de atenção diferente. Ele observa aquilo que poderia passar despercebido e pergunta, ainda que silenciosamente: e se isso fosse uma história?


Outro ponto que considero interessante é a relação da Marcela com o silêncio e com a escrita à mão.


Vivemos em uma época em que produzir tornou-se quase sinônimo de velocidade. Digitamos, apagamos, reescrevemos e enviamos em poucos segundos. Nesse contexto, escolher o papel e a caneta como parte do processo criativo parece quase uma resistência à pressa. E há algo bonito nisso.


A escrita manual impõe um ritmo. Obriga o pensamento a acompanhar o movimento da mão. Talvez seja justamente essa lentidão que permita que determinadas ideias amadureçam.


Quando Marcela fala sobre transformar “pensamentos dispersos em capítulos coesos e emoções em palavras”, ela toca em uma questão que considero central para a literatura: escrever não é apenas registrar aquilo que pensamos; é organizar aquilo que sentimos e percebemos até que outra pessoa consiga atravessar aquela experiência conosco.


Sua formação acadêmica acrescenta outra camada a esse processo.


A própria Marcela afirma que Letras e Literatura lhe deram um “olhar clínico” sobre o texto. Isso mostra uma aparente tensão que considero muito interessante: existe, de um lado, a sensibilidade necessária para criar; de outro, o rigor necessário para revisar.


A inspiração pode trazer a história, mas não necessariamente entrega a obra pronta. Existe uma diferença entre ter algo para dizer e saber construir a maneira de dizê-lo.


Nesse sentido, criatividade e técnica não precisam ser adversárias. Pelo contrário. Podem trabalhar juntas.


Talvez seja essa uma das grandes questões que ficam desta primeira entrevista do EM QUESTÃO.


De onde nasce uma história?


A resposta da Marcela parece apontar para muitos lugares ao mesmo tempo: nasce nos livros que lemos, nas experiências que vivemos, nas pessoas que encontramos, nas coisas que observamos, no silêncio que criamos e até naquilo que sentimos sem saber explicar.


Mas existe ainda outra coisa. Uma história nasce quando alguém decide não deixar determinada experiência morrer dentro de si.


A menina que frequentava a biblioteca de São Gabriel da Palha talvez não soubesse que, anos depois, escreveria seus próprios livros. Mas aquela menina já estava, de alguma forma, construindo a escritora que viria a ser.


Talvez porque, antes de escrever histórias, ela passou anos aprendendo a entrar nas histórias dos outros.


E talvez todo escritor seja, antes de qualquer coisa, um grande leitor da vida.


Sobre Marcela


Marcela Bissoli Mauri é escritora, especialista em Língua e Literatura e pós-graduada em Jornalismo Digital. É professora de inglês há 20 anos e possui quatro publicações, caminhando para seu quinto livro, Entre livros e silêncios, previsto para 2027.


Entre suas obras estão Memórias de uma pandemia (2021), Marcados pelo coração (2023), 12 erros de português mais comuns na escrita (2024) e Lembranças de você (2025).


Para acompanhar seu trabalho:

Instagram: @marcelaescritora


EM QUESTÃO

Pessoas reais, histórias que fazem pensar.


A primeira edição termina aqui, mas a questão permanece:


O que existe por trás de uma história?


Talvez a resposta esteja justamente nas pessoas que tiveram coragem de contá-la.


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Escrito por Ketty Williams

12 de agosto de 2026

Entrevista com Marcela Bissoli Mauri

1 comentário


Simplesmente amei participar deste lindo projeto! Grata pelo convite. Parabéns pelo profissionalismo! Com certeza, será um sucesso! 👏👏

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