EM QUESTÃO #02 - Quando a fé permanece: uma conversa com Pr. Cláudio Calais
- Ketty Williams

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Atualizado: há 3 dias

Entrevista com Pr. Cláudio Calais - Por Ketty Williams
Há uma diferença entre falar sobre Deus e continuar acreditando quando Deus parece permanecer em silêncio.
Há também uma diferença entre conhecer a teologia nos livros e descobrir o que resta dela quando a existência deixa de obedecer às nossas explicações.
Foi a partir dessa fronteira, entre conhecimento e experiência, razão e fé, púlpito e humanidade, que esta edição do EM QUESTÃO foi construída.
O convidado desta edição é Cláudio Calais, pastor, teólogo, professor e escritor, autor de diversas obras e com uma trajetória ministerial que ultrapassa fronteiras nacionais.
Mas minha intenção nesta entrevista não era conhecer somente o pastor diante do púlpito, o professor, o escritor ou o teólogo.
Eu queria fazer o caminho inverso.
Retirar, por alguns instantes, os títulos e perguntar quem permanece por trás deles.
A conversa passou pelo chamado ministerial, pelas perdas, pelo silêncio de Deus, pela dúvida, pelos limites da razão, pelo sofrimento, pela relação entre conhecimento teológico e experiência espiritual, pela vulnerabilidade de quem lidera e pelos desafios da Igreja contemporânea.
E talvez justamente por isso a entrevista tenha chegado a uma questão ainda mais fundamental: O que permanece quando retiramos aquilo pelo qual somos conhecidos?
A entrevista
1. Quem é Cláudio Calais quando retiramos os títulos de pastor, teólogo, professor e escritor?
Antes de conhecermos o ministério e as obras, gostaria de conhecer um pouco do homem por trás deles. Quem é o Cláudio na vida cotidiana, em seus valores, afetos e na maneira como enxerga a própria existência?
Cláudio Calais:
Quando você tira o "pastor", "teólogo", "professor" e "escritor"... sobra o melhor de mim (um homem.)
Sobra o Cláudio que acorda cedo, toma café preto, lê Bíblia não para preparar mais uma ministração, mas para sobreviver.
Sou um homem comum, cheio de falhas, que aprendeu cedo que a vida não é sobre ter respostas, mas sobre aprender a viver com as perguntas.
Meus valores? Verdade, mesmo quando dói. Casa, mesmo quando o ministério grita. Silêncio, mesmo quando o mundo pede opinião.
Eu enxergo a existência como um deserto com oásis. A gente caminha muito, sofre sede, e de repente Deus dá água. E a gente aprende a não chamar oásis de "chegada", porque a caminhada continua.
Antes de tudo, eu sou filho. E isso basta.
2. Quando o senhor olha para o início da sua caminhada e para o homem que é hoje, quais experiências considera fundamentais para sua formação?
Houve dificuldades, perdas, renúncias ou períodos de incerteza que, embora difíceis naquele momento, posteriormente se mostraram importantes para a construção da sua fé e do seu ministério?
Cláudio Calais:
As perdas. Sem dúvida.
A gente só aprende teologia de verdade no chão da dor.
No início do ministério eu achava que fé era sinônimo de vitória. A vida me ensinou que fé é sinônimo de permanecer.
Houve renúncias que doeram como cirurgia sem anestesia. Houve silêncio de Deus que parecia abandono. Houve a tentação de desistir porque "não estava dando certo".
Hoje eu vejo: Deus estava me desmontando pra me remontar.
Ele tirou da minha mão o que eu achava que era ministério, pra me dar o que de fato era ministério.
Se eu não tivesse passado por isso, eu seria só um bom orador. Não um pastor.
3. Existe diferença entre receber um chamado e estar preparado para aquilo que o chamado exigirá de nós?
Em sua experiência, o que o senhor precisou aprender, ou desaprender, depois de entrar no ministério?
Cláudio Calais:
Total. O chamado é instantâneo. A preparação é um deserto de 40 anos.
Receber o chamado é ouvir Deus. Estar preparado é aprender a calar quando Deus cala.
Eu precisei desaprender 3 coisas:
Que eu precisava provar algo — Pra Deus e pros homens.
Que resultado era sinônimo de aprovação — Tem obra que Deus manda fazer pra morrer no deserto.
Que eu era indispensável — O ministério não é meu. É Dele. Se eu morrer hoje, Ele levanta outro amanhã.
O que eu precisei aprender? A obedecer sem entender. A pastorear sem ser aplaudido. A confiar no processo.
4. É relativamente fácil falar sobre fé quando aquilo em que acreditamos parece corresponder ao que estamos vivendo. Mas o que acontece com a fé quando Deus parece silencioso?
Como o senhor compreende os períodos em que oramos, esperamos e, aparentemente, não recebemos a resposta que desejávamos?
Cláudio Calais:
Ela amadurece. Ou ela morre. Não tem meio termo.
O silêncio de Deus não é ausência. É escola.
Quando Deus cala, Ele está dizendo: "Agora anda pelo que você já ouviu".
Nós queremos resposta. Deus quer relacionamento.
Eu aprendi a orar menos pedindo e mais permanecendo.
Salmo 46:10: "Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus".
Às vezes a resposta é o próprio silêncio. Porque no silêncio a gente para de falar e começa a ouvir.
5. A dúvida representa ausência de fé?
Do ponto de vista teológico e também da sua experiência pessoal, existe espaço dentro de uma fé madura para perguntas, incertezas e até crises? A dúvida pode, em determinadas circunstâncias, aprofundar aquilo em que cremos?
Cláudio Calais:
Não. Representa honestidade.
Tomé duvidou. Jó questionou. Davi gritou: "Até quando Senhor?". E todos foram chamados de homens de Deus.
Fé madura não é fé sem pergunta. É fé que leva a pergunta pra Deus e não pro Twitter.
A dúvida que destrói é a dúvida cínica. A dúvida que constrói é a dúvida de filho: "Pai, eu não entendi. Me explica?"
Sim, a dúvida aprofunda. Porque ela nos tira do raso das frases de efeito e nos joga no profundo de Deus.
6. Depois de tantos anos estudando, ensinando e pregando sobre Deus, o conhecimento teológico tornou Deus mais compreensível para o senhor ou também tornou mais evidente o quanto Ele permanece insondável?
Existe um ponto em que a Teologia precisa reconhecer os limites da própria razão?
Cláudio Calais:
Mais insondável. E graças a Deus por isso.
Quanto mais eu estudo, mais eu descubro que não sei nada.
A teologia é o mapa. Deus é o território.
Se o mapa vira maior que o território, virou idolatria.
Chega um ponto que a razão tem que ajoelhar e dizer: "Santo, Santo, Santo". Isaías 6:3.
Teologia sem mistério vira matemática. E Deus não cabe em fórmula.
7. Fé e razão são opostas?
Como teólogo, como o senhor compreende essa relação? Uma fé que teme ser questionada intelectualmente pode realmente ser considerada uma fé madura?
Cláudio Calais:
Não. São asas do mesmo avião.
Uma fé que tem medo de pergunta é uma fé fraca. Uma razão que despreza revelação é uma razão cega. A fé diz: "Creio". A razão pergunta: "No que eu creio?".
Os dois juntos nos guardam do fanatismo e do ceticismo.
Uma fé madura não teme ser examinada. Porque se é verdade, ela resiste.
8. Se Deus é bom e soberano, por que o sofrimento permanece uma realidade tão profunda da existência humana?
Depois de sua experiência ministerial, o senhor responde a essa questão hoje da mesma maneira que responderia quando era mais jovem?
Cláudio Calais:
Quando jovem eu respondia com teodicéia e 3 pontos. Hoje eu respondo com lágrimas e com a cruz.
Eu não tenho resposta intelectual que tire a dor de uma mãe que perde um filho.
Mas eu tenho um Deus que entrou no sofrimento. Que chorou. Que sangrou.
O problema do sofrimento não é resolvido na mente. É abraçado na cruz.
Deus não promete nos tirar de toda dor. Ele promete estar na dor conosco. E usar a dor pra nos fazer parecidos com Cristo. Romanos 8:29.
Minha resposta mudou: de "tentar explicar Deus" para "apontar pra Jesus".
9. Existe uma diferença entre conhecer doutrinas sobre Deus e conhecer Deus?
Como evitar que o estudo teológico transforme a fé apenas em um objeto intelectual? E, no sentido inverso, como evitar uma espiritualidade que rejeite o conhecimento e se sustente somente na emoção?
Cláudio Calais:
Enorme.
Posso saber tudo sobre casamento e morrer solteiro. Posso decorar a Bíblia e não conhecer o Autor.
O estudo vira ídolo quando eu uso Deus pra defender minha teologia, em vez de usar minha teologia pra conhecer Deus.
E a emoção vira idolatria quando eu quero "sentir Deus" mas rejeito a Palavra que revela Deus.
O equilíbrio? João 5:39: "Examinais as Escrituras... e são elas que testificam de mim".
Estudo pra conhecer A Pessoa. Não só A doutrina sobre a Pessoa.
10. O senhor já esteve diante de muitas pessoas como ministro, professor e pregador. Mas quem ministra também enfrenta fraquezas, cansaço e conflitos que nem sempre são vistos pelo público.
Como um líder cristão aprende a lidar com a expectativa de precisar parecer forte quando, como qualquer ser humano, também atravessa momentos de vulnerabilidade?
Cláudio Calais:
Chorando sozinho e orando em público. Sendo vulnerável com Deus e responsável com o rebanho. O púlpito não pode virar palco. E o pastor não pode virar personagem.
Eu aprendi a dizer pra igreja: "Eu não sei. Eu estou cansado. Orem por mim".
Forte não é quem não apresenta vulnerabilidades. Forte é quem mesmo tendo suas fraquezas expostas se levanta diariamente dizendo: "A graça me sustenta de pé".
11. Em sua visão, qual é um dos maiores desafios da Igreja cristã contemporânea?
Há algo que estamos enfatizando excessivamente e, ao mesmo tempo, alguma dimensão essencial do Evangelho que estamos deixando em segundo plano?
Cláudio Calais:
Estamos trocando discípulos por audiência. Enfatizando excessivamente: relevância, performance, número, viral. Deixando em segundo plano: santidade, arrependimento, cruz, espera, silêncio.
Sem querer generalizar mas uma fatia significativa da Igreja tornaram-se empresa. Consequentemente. O culto virou show. E os membros viraram clientes.
O maior desafio é voltar pra Atos 2:42. Palavra, comunhão, partir do pão e orações. Sem marketing.
12. O senhor também construiu uma trajetória como escritor, com diversas obras publicadas. O que a escrita permite expressar que talvez o púlpito e a sala de aula não permitam da mesma maneira?
Quando escreve um livro, o senhor pensa principalmente em ensinar, provocar reflexão, registrar aquilo que aprendeu ou deixar algo que permaneça depois de sua própria geração?
Cláudio Calais:
Profundidade sem pressa.
No púlpito você tem entre 40 e 60 min. No livro você tem a vida do leitor.
Escrever é conversar com a alma sem microfone. É deixar um pensamento quieto na mesa pra pessoa mastigar por dias.
Quando escrevo, penso em 3 coisas: Ensinar a verdade, provocar a consciência, e deixar algo que fale depois que eu calar.
Você morre, mas a palavra fica.
13. Se o senhor pudesse se encontrar hoje com o Cláudio do início do ministério, antes das experiências, das viagens, dos livros, das ministrações e das dificuldades que ainda enfrentaria, o que diria a ele?
Existe alguma convicção que manteria exatamente como era e alguma certeza que aconselharia aquele jovem a rever?
Cláudio Calais:
Diria: "Filho, desacelera. Você não precisa salvar o mundo. Só precisa ser fiel no que te deram hoje".
Manteria: O amor pela Palavra e o temor a Deus.
Revisaria: A ansiedade por resultado. A necessidade de agradar todo mundo. A ideia de que se eu parar, tudo para.
Diria: "Deus não te chamou pra ser gigante. Te chamou pra ser servo."
E diria sobre tudo o que Paulo disse em Efésios 3.20.
14. Para encerrarmos, depois de tudo o que o senhor estudou, viveu, ensinou, escreveu e pregou, o que permanece quando retiramos títulos, reconhecimento, realizações e até o próprio ministério?
Se fosse necessário resumir aquilo que sua caminhada lhe ensinou sobre Deus, sobre o ser humano e sobre o sentido de uma vida bem vivida, o que permaneceria como essencial?
Cláudio Calais:
Quando tira título, livro, igreja, microfone... sobra uma coisa: Jesus.
O que aprendi sobre Deus: Ele é Pai. Mesmo quando não entendo.
O que aprendi sobre o homem: Somos barro. E é isso que faz a glória ser dEle e não nossa.
O que aprendi sobre vida bem vivida: Não é a que foi vista. É a que foi escondida com Cristo em Deus. Cl 3:3.
No fim, só resta isso: "Conhecer a Ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo a quem enviaste" João 17:3.
Se eu tiver isso, tive tudo.
Minha análise
Depois desta entrevista, acredito que vou continuar pensando por muito tempo.
Há conversas que terminam quando encerramos as perguntas. Outras permanecem conosco, voltam à mente horas depois e nos obrigam a reconsiderar aquilo que julgávamos compreender. Para mim, esta entrevista pertence à segunda categoria.
O Pr. Cláudio trouxe respostas que nos fazem questionar não apenas o que sabemos, mas se realmente sabemos tanto quanto imaginamos saber.
Conversar com alguém que reúne profundidade intelectual, experiência ministerial e sensibilidade espiritual é uma experiência que quero guardar para a vida. Porque encontros assim nos lembram de algo que considero fundamental, especialmente para quem estuda Teologia: saber não é a mesma coisa que viver aquilo que se sabe.
Podemos estudar Deus durante anos. Podemos conhecer doutrinas, sistemas teológicos, argumentos filosóficos, hermenêutica, exegese e história da Igreja. Podemos aprender a falar corretamente sobre fé. Ainda assim, existe uma distância entre compreender uma proposição e descobrir se ela permanece verdadeira para nós quando a vida deixa de colaborar com nossas certezas.
Foi exatamente isso que encontrei em várias respostas desta entrevista.
Uma das primeiras frases que me atravessou foi esta:
“Ela amadurece. Ou ela morre. Não tem meio termo.”
Ele falava sobre aquilo que acontece com a fé quando Deus parece silencioso.
Essa resposta me fez pensar porque frequentemente associamos maturidade espiritual ao aumento das certezas. Talvez, em alguns momentos, amadurecer seja justamente continuar quando já não possuímos a segurança emocional que tínhamos antes.
É relativamente simples dizer que confiamos em Deus quando conseguimos compreender o caminho.
A questão muda quando não compreendemos.
E então surge outra frase:
“Nós queremos resposta. Deus quer relacionamento.”
Talvez uma parte da nossa frustração espiritual esteja justamente nisso.
Frequentemente procuramos Deus pelas respostas que esperamos receber Dele. Queremos explicações, sinais, soluções, direções. E nenhuma dessas coisas é necessariamente errada. O problema começa quando o relacionamento passa a depender da resposta.
Se Deus responde, permanecemos.
Se Deus silencia, questionamos se Ele ainda está ali.
Por isso outra afirmação me parece particularmente significativa:
“Às vezes a resposta é o próprio silêncio. Porque no silêncio a gente para de falar e começa a ouvir.”
O silêncio geralmente nos incomoda porque nele perdemos parte do controle. Não conseguimos preencher imediatamente aquilo que não compreendemos.
Talvez por isso o silêncio também revele tanto sobre nós.
Ele nos confronta com a pergunta que poucas vezes desejamos formular: continuarei acreditando quando Deus não se explicar para mim?
E então chegamos à dúvida.
“A dúvida que constrói é a dúvida de filho: ‘Pai, eu não entendi. Me explica?’”
Essa distinção me parece extremamente importante.
Durante muito tempo, determinados ambientes cristãos fizeram parecer que perguntar era quase uma forma de incredulidade. Mas uma fé incapaz de suportar perguntas talvez seja mais frágil do que aparenta.
Perguntar não é necessariamente negar.
Às vezes, perguntamos justamente porque levamos aquilo em que acreditamos suficientemente a sério para querer compreendê-lo melhor.
Existe diferença entre a dúvida que deseja destruir qualquer possibilidade de resposta e a dúvida daquele que continua diante de Deus dizendo: “Eu ainda estou aqui. Só não estou entendendo.”
Talvez essa seja uma das formas mais honestas de fé.
Outra resposta quase poderia resumir minha própria relação com o conhecimento:
“Quanto mais eu estudo, mais eu descubro que não sei nada.”
Essa frase me representa profundamente.
Existe uma espécie de paradoxo no conhecimento. Quando sabemos pouco, é relativamente fácil acreditar que compreendemos muito. À medida que avançamos, as fronteiras daquilo que ignoramos começam a se tornar mais visíveis.
Quanto mais estudo Teologia e Filosofia, mais percebo a dimensão das perguntas que ainda não consigo responder.
E isso não diminui meu desejo pelo conhecimento. Pelo contrário. Aumenta.
Mas também me ensina humildade.
Talvez conhecer verdadeiramente alguma coisa seja também adquirir consciência dos limites do próprio conhecimento.
É nesse ponto que uma das frases mais brilhantes da entrevista aparece:
“A teologia é o mapa. Deus é o território.”
Para mim, foi cirúrgico.
Um mapa pode nos orientar. Pode apontar caminhos. Pode organizar aquilo que observamos. Pode nos ajudar a compreender o território.
Mas o mapa jamais será o território.
Da mesma maneira, a Teologia é necessária. Eu acredito profundamente na importância do estudo teológico. Mas nenhum sistema teológico, por mais sofisticado que seja, possui Deus.
Esse talvez seja um dos maiores perigos intelectuais da religião, confundir aquilo que conseguimos formular sobre Deus com a totalidade de quem Deus é.
E então ele completa:
“Teologia sem mistério vira matemática. E Deus não cabe em fórmula.”
Talvez seja exatamente aqui que conhecimento e reverência precisam se encontrar.
Estudar Deus não deveria diminuir o mistério. Deveria torná-lo ainda mais impressionante.
Quanto mais compreendemos, mais percebemos aquilo que permanece além da nossa compreensão.
E talvez por isso fé e razão não precisem guerrear entre si.
“Uma fé que tem medo de pergunta é uma fé fraca. Uma razão que despreza revelação é uma razão cega.”
E ainda:
“A fé diz: ‘Creio’. A razão pergunta: ‘No que eu creio?’”
Considero essa relação essencial.
Uma fé que se recusa a pensar corre o risco de se tornar vulnerável ao fanatismo.
Uma razão que determina previamente que somente aquilo que ela consegue medir pode existir também pode transformar seus próprios limites em critérios para definir toda a realidade.
Talvez maturidade seja justamente recusar os dois extremos.
Crer não significa abandonar a razão. Pensar não significa abandonar a fé.
Há espaço para reverência e investigação na mesma mente.
Outra comparação do Pr. Cláudio me marcou profundamente:
“Posso saber tudo sobre casamento e morrer solteiro. Posso decorar a Bíblia e não conhecer o Autor.”
Isso toca diretamente naquilo que acredito ser uma das grandes tentações da vida teológica.
Podemos transformar Deus em objeto de estudo.
Discutimos atributos, conceitos, interpretações, termos gregos e hebraicos, doutrinas, tradições e divergências. Tudo isso possui valor.
Mas existe uma pergunta desconfortável depois de tudo isso: Estamos conhecendo melhor Deus ou apenas acumulando conhecimento sobre Ele?
Foi por isso que a continuação me chamou ainda mais atenção:
“O estudo vira ídolo quando eu uso Deus pra defender minha teologia, em vez de usar minha teologia pra conhecer Deus.”
Essa frase merece ser lida devagar.
Porque é possível começar estudando Teologia para compreender Deus e terminar utilizando Deus apenas para defender a própria Teologia.
Nesse momento, já não estamos procurando verdade. Estamos procurando vencer. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Da mesma forma, ele acrescenta:
“E a emoção vira idolatria quando eu quero ‘sentir Deus’ mas rejeito a Palavra que revela Deus.”
Aqui existe um equilíbrio que considero extremamente necessário. Nem intelectualismo sem vida, nem espiritualidade sem fundamento. Nem transformar Deus em conceito, nem transformar Deus em sensação.
Talvez uma fé madura precise tanto da profundidade do pensamento quanto da experiência sincera da presença de Deus.
Outra parte que me atingiu de maneira muito particular foi sua análise da Igreja contemporânea:
“Estamos trocando discípulos por audiência.”
Confesso que esse assunto tem me preocupado. Vivemos em uma cultura determinada por números. Visualizações. Seguidores. Engajamento. Alcance. Relevância. Performance. E não considero necessariamente errado utilizar meios contemporâneos para comunicar o Evangelho. O problema surge quando começamos a permitir que os critérios das plataformas determinem nossos critérios espirituais.
Quando aquilo que viraliza começa a parecer mais importante do que aquilo que transforma. Quando o número de pessoas alcançadas importa mais do que a profundidade com que elas estão sendo formadas. Quando visibilidade começa a ser confundida com fruto.
Por isso me impactou quando ele afirmou que estamos enfatizando:
“relevância, performance, número, viral.”
Enquanto deixamos em segundo plano:
“santidade, arrependimento, cruz, espera, silêncio.”
Concordo profundamente, e isso realmente me preocupa. Porque algumas das coisas mais importantes do cristianismo são justamente aquelas que não funcionam bem dentro da lógica da velocidade.
Santidade exige processo. Arrependimento exige confronto. A cruz exige renúncia. Espera exige paciência. Silêncio exige que deixemos de produzir ruído.
Nada disso é particularmente compatível com uma cultura que nos ensina que precisamos ser vistos constantemente.
Talvez seja justamente por isso que a última resposta tenha sido tão impactante.
Perguntei o que permaneceria se retirássemos títulos, livros, igreja e microfone.
A resposta foi:
“Jesus.”
E depois:
“O que aprendi sobre Deus: Ele é Pai. Mesmo quando não entendo.”
“O que aprendi sobre o homem: Somos barro. E é isso que faz a glória ser dEle e não nossa.”
“O que aprendi sobre vida bem vivida: Não é a que foi vista. É a que foi escondida com Cristo em Deus.”
Até chegar ao encerramento:
“No fim, só resta isso: ‘Conhecer a Ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo a quem enviaste’. João 17:3.”
“Se eu tiver isso, tive tudo.”
Talvez esse seja o ponto mais forte de toda a entrevista.
Passamos grande parte da vida tentando acrescentar coisas ao nosso nome. Títulos. Formações. Reconhecimento. Obras. Projetos. Seguidores. Realizações. E então chega uma pergunta muito mais difícil: Se tudo isso for retirado, quem permanece?
Talvez possamos passar anos construindo uma identidade diante das pessoas e, ainda assim, precisar descobrir quem somos diante de Deus.
No início da entrevista, o Pr. Cláudio disse:
“Antes de tudo, eu sou filho. E isso basta.”
E no final, depois de retirarmos simbolicamente tudo aquilo que poderia definir sua trajetória pública, permaneceu Jesus. Existe algo profundamente coerente nisso. Começamos com um filho. Terminamos com o Pai revelado em Cristo.
Depois desta entrevista, uma coisa permanece muito clara para mim: conhecimento sem experiência pode produzir discurso, mas não necessariamente transformação.
Podemos saber definir fé e nunca precisar permanecer. Podemos estudar o sofrimento e nunca ter nossas respostas confrontadas pela dor. Podemos ensinar sobre silêncio sem jamais suportar o silêncio de Deus. Podemos estudar graça e ainda viver tentando provar que somos indispensáveis.
Talvez existam verdades que compreendemos primeiro com a mente e somente muitos anos depois aprendemos com a vida. E talvez a sabedoria esteja justamente nesse encontro. Não abandonar o conhecimento. Não desprezar a razão. Não fugir das perguntas. Mas reconhecer que, diante de Deus, todo conhecimento verdadeiro deveria produzir também humildade.
Saio desta entrevista com mais perguntas do que entrei. E, curiosamente, considero isso uma das melhores coisas que poderiam ter acontecido. Porque talvez uma boa conversa não seja aquela que encerra todas as questões. Talvez seja aquela que nos acompanha depois que termina.
Ao Pr. Cláudio Calais, deixo meu sincero agradecimento pela generosidade, pelo tempo dedicado a esta entrevista e, principalmente, pela honestidade com que compartilhou não apenas aquilo que aprendeu nos livros, mas aquilo que a vida, o ministério, a dor, o silêncio e a fé lhe ensinaram.
Foi uma honra poder ouvi-lo e registrar parte dessas reflexões no EM QUESTÃO. Algumas respostas nós lemos e seguimos adiante. Outras permanecem conosco.
Acredito que estas permanecerão comigo por muito tempo.
Ketty Williams
EM QUESTÃO
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