No Mundo dos Mortos: Platão, Maquiavel e Agostinho Discutem a República
- Ketty Williams

- 6 de ago.
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Em algum lugar no mundo dos mortos, uma mesa de madeira antiga reúne três homens. Um tem o olhar sereno de quem contempla formas eternas; o outro, o semblante marcado por anos de luta entre a carne e o espírito; o terceiro, um sorriso cúmplice de quem já viu todos os jogos do poder. Eles pedem vinho. A conversa começa.
— Então, meus caros, o que é uma república para cada um de vocês? — pergunto eu, servindo como anfitriã.
— Platão (apoiando a taça sem beber, com um leve sorriso): Para mim, a politeia, que vocês traduzem como república, é a cidade justa, a alma ampliada. Não falo de um ajuntamento de casas e muralhas. Falo da ordem que espelha o Bem. Na cidade bem governada, cada um cumpre a função que lhe é própria, segundo a natureza de sua alma. Os artesãos produzem, os guardiões protegem e os filósofos… ah, os filósofos governam. Porque só quem contemplou as Ideias pode legislar sem se perder nas sombras.
— Maquiavel (inclinando-se, cotovelos na mesa): Que bela pintura, Platão. Uma república de anjos de bronze. Mas me diga: você já governou Siracusa? Já pisou nos corredores da Signoria? A “cidade justa” que você desenha está tão distante de como os homens realmente vivem quanto as nuvens estão da terra. Para mim, a república, e aqui falo da romana, que realmente existiu, é um corpo misto, uma tensão entre o povo e os grandes, onde o conflito não é doença, mas sinal de vitalidade. Ela sobrevive não porque é justa em abstrato, mas porque tem boas armas, boas leis e homens que sabem usar a fortuna com virtù.
— Agostinho (fazendo um sinal da cruz sobre o pão antes de responder, voz grave): Os dois falam como se a república pudesse ser o lar definitivo do homem. Nicolau, você acerta ao ver que o homem não é pura razão; Platão, você intui que há uma ordem superior. Mas nenhuma cidade terrena pode ser verdadeiramente justa sem prestar a Deus o que é de Deus. Eu distingo a Cidade de Deus, que peregrina neste mundo, da cidade dos homens, fundada no amor próprio até o desprezo de Deus. Toda república humana, mesmo Roma com todas as suas virtudes civis, não passa de um bando de ladrões bem organizado se lhe falta a justiça que vem do alto. Sem Cristo, a justiça é vaidade.
— Maquiavel (rindo baixinho): “Bando de ladrões”! E no entanto, bispo, foram esses ladrões que mantiveram a paz por séculos. O que Roma fez, mesmo pagã, foi criar grandeza. Você dirá que era apenas cupidez disfarçada. Mas eu lhe pergunto: que paz sua Cidade de Deus trouxe aos campos da Itália enquanto os exércitos do Papa e do Imperador brigavam? Se um príncipe ou uma república quiser durar, precisa aprender a não ser bom segundo a moral dos conventos. Deve entrar no mal, se necessário. Pois o vulgo se deixa levar pela aparência e pelo resultado. A república exige, às vezes, o leão e a raposa.
— Platão (franzindo o cenho): Isso é perigoso, florentino. Se abandonamos a medida da justiça, a república se transforma em timocracia, oligarquia, democracia sem freio e, por fim, na pior das tiranias. Eu vi a demagogia devorar meu mestre Sócrates. A cidade que dispensa a razão está condenada a ser governada pelos apetites da multidão, uma besta de muitas cabeças. Por isso insisto: o governante deve ser aquele que não ama o poder. Só o filósofo, que conhece a verdadeira felicidade, não se corrompe. Do contrário, a política vira espetáculo e rapina.
— Agostinho (assentindo parcialmente): Nisso, Platão, você e eu nos tocamos, ainda que por caminhos diferentes. O poder sem justiça é de fato rapina em larga escala. Mas a raiz do problema é mais funda: a vontade humana está doente. A libido dominandi, o desejo de dominação, corrompe até mesmo o filósofo. Nenhum rei, por mais sábio, escapa da mancha de Adão. Por isso, mesmo a república mais bem ordenada é apenas um remédio provisório contra a anarquia do pecado. Aceitemos a autoridade civil, paguemos impostos, combatamos o mal com a espada do magistrado, mas sem jamais confundir a pátria celeste com qualquer pátria terrena. O fim último está além do mármore do Senado.
— Maquiavel (enchendo a taça de novo): É belo, é belo. Mas enquanto esperamos a Cidade Celeste, temos que governar a Florença de carne e osso. E em Florença, ou numa república romana, o que conta é a liberdade. Não a liberdade de contemplar ideias, mas a de não ser oprimido. Para isso, as leis têm que ser armadas. Um Estado bem fundado precisa de um começo forte, às vezes monstruoso: veja Rômulo matando Remo. Mas o gênio de uma república é canalizar a ferocidade dos grandes e a vontade de não ser dominado do povo num equilíbrio que gera grandeza. A virtù romana não veio de reis filósofos; veio da educação, das armas e da religião usada como instrumento civil. Sim, Agostinho, falo da religião que você prega, excelente para manter o povo ordeiro e temente, desde que não enfraqueça os ânimos.
— Agostinho (com tristeza): Aí está a tua heresia, Nicolau. Usar o nome de Deus como instrumento do poder terreno é edificar a cidade do Diabo com tijolos do templo. A religião não é freio útil; é a verdade que nos liberta, mesmo que politicamente ela pareça “enfraquecer”. O mártir que perdoa o carrasco é mais forte diante de Deus do que todos os cônsules vitoriosos. A justiça da tua república, sem caridade, é soberba vestida de púrpura.
— Platão (meditativo): Apesar do abismo entre vocês dois, vejo um fio. Agostinho, tu dizes que a cidade terrena sempre será imperfeita e que a verdadeira justiça habita noutro plano. Não é tão diferente da minha constatação de que a cidade ideal talvez nunca exista, mas está impressa no céu, como modelo para quem quiser fundar a cidade dentro de si. E Maquiavel, tu olhas para a verdade efetiva das coisas, como se descesses de volta à caverna e descrevesses os jogos de sombras que os prisioneiros travam entre si. Só me assusta que te contentes em vencer nesse jogo sem acender a luz.
— Maquiavel (sério, pela primeira vez): A luz que acendo, Platão, é a da glória terrena compartilhada por um povo livre. Não a desprezes. Uma república bem ordenada, que arma seus cidadãos e os faz amar a pátria acima da alma, pode durar séculos e elevar a estatura humana. Talvez a tua luz seja sublime demais para aquecer os corpos que sofrem hoje sob um tirano. Entre o filósofo que se refugia no jardim das Ideias e o bispo que olha para a eternidade, eu fico com a mão na massa suja do presente, construindo um dique que segure o rio da fortuna. Não me peçam para ser puro; peçam-me para salvar a república.
"E assim, no palco da minha mente, esses três personagens eternos representam sempre o mesmo drama. As cortinas se fecham, mas o espetáculo nunca termina."
Por Ketty Williams. 06/08/26.




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