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Pai, perdoa-lhes: quando a certeza religiosa nos impede de ver

Atualizado: há 4 dias


Uma reflexão cristã, teológica, filosófica e sociológica sobre fé, ignorância, julgamento e os limites da certeza humana “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” Lucas 23:34



O que dizer sobre crenças?


Talvez uma das perguntas mais desconfortáveis que alguém possa fazer a si mesmo seja esta: quanto daquilo em que acredito eu realmente escolhi acreditar?


Antes de responder, imagine um cenário. Você nasce em determinada casa, dentro de determinada família e cercado por determinada cultura. Desde criança, aprende quem é Deus, o que é sagrado, o que é pecado, o que existe depois da morte, quem está certo, quem está errado e qual caminho conduz à verdade.


As pessoas que você ama acreditam nisso. Seus pais acreditam. Seus avós acreditavam. Seus amigos acreditam. As pessoas respeitadas da sua comunidade confirmam aquilo que lhe ensinaram.


Os livros que você recebe, os lugares que frequenta, as celebrações das quais participa e até o vocabulário através do qual você pensa sobre Deus reforçam a mesma estrutura.


E você cresce.


Não necessariamente porque investigou todas as religiões existentes e concluiu racionalmente que aquela era verdadeira. Você simplesmente nasceu dentro de um mundo no qual aquela crença já estava estabelecida antes que tivesse idade suficiente para questioná-la.


Com o passar dos anos, aquela crença deixa de parecer apenas uma interpretação da realidade. Ela se torna a própria realidade.


Agora imagine que, depois de adulto, você viaje para outro país.


Ali existe outra religião predominante. As famílias daquele lugar ensinam seus filhos desde pequenos exatamente como a sua família ensinou você. Eles frequentam seus templos, conhecem suas tradições, repetem suas histórias sagradas, possuem seus mestres, suas experiências espirituais, seus testemunhos e sua convicção.


Eles também cresceram ouvindo: “Este é o caminho verdadeiro.”


Você chega naquele lugar e anuncia aquilo em que acredita. Diz que sua fé é verdadeira. Eles respondem que a deles também é. Você insiste. Eles insistem. Você apresenta suas razões. Eles apresentam as deles. Você possui experiências que considera evidências. Eles também possuem. Você está convencido de que serve a Deus. Eles igualmente estão.


Até que sua pregação passa a ser interpretada como afronta à religião, à cultura ou à ordem daquela sociedade. Você é preso. Julgado. Condenado. Talvez punido.


E aqui está o ponto mais inquietante: as pessoas que o condenam podem acreditar sinceramente que estão fazendo o que é correto.


Isso não transforma a injustiça em justiça. Não transforma mentira em verdade. Não torna moral aquilo que é imoral. Mas revela alguma coisa profundamente perturbadora sobre a condição humana: podemos estar sinceramente errados.


Podemos amar aquilo que julgamos ser a verdade e, justamente em nome dessa verdade, cometer uma injustiça terrível. Podemos acreditar que estamos defendendo Deus quando, na realidade, estamos lutando contra aquilo que Deus está fazendo.


E talvez seja exatamente nesse território que as palavras pronunciadas por Cristo na cruz revelem uma de suas dimensões mais profundas: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”


Eles realmente não sabiam?


Jesus estava crucificado. Seu corpo havia sido ferido, humilhado e exposto publicamente. Ao redor dele existiam soldados cumprindo ordens, autoridades sustentando uma condenação, espectadores observando e pessoas que haviam participado, direta ou indiretamente, daquele processo.


E Jesus não diz: “Pai, destrói aqueles que fizeram isso.” Também não diz: “Pai, mostra-lhes que eu estava certo.” Ele diz: “Pai, perdoa-lhes.” E apresenta uma razão extraordinária: “porque não sabem o que fazem.”


Isso não significa que eles desconheciam materialmente suas ações. Os soldados sabiam que estavam pregando alguém em uma cruz. As autoridades sabiam que uma condenação havia ocorrido. A multidão sabia que um homem estava morrendo.


O “não saber”, portanto, parece alcançar uma dimensão mais profunda. Eles sabiam o que estavam fazendo fisicamente, mas não compreendiam plenamente o significado daquilo que estavam fazendo.


Pregavam um homem numa cruz sem compreender quem estava naquela cruz. Participavam de uma execução sem compreender a dimensão espiritual daquele acontecimento. Acreditavam estar eliminando um problema, um perturbador da ordem, um condenado. Dentro da fé cristã, porém, estavam crucificando o Cristo.


Essa interpretação encontra eco no próprio Novo Testamento. Em Atos 3:17, Pedro afirma que o povo e seus líderes haviam agido “por ignorância”. Paulo, em 1 Coríntios 2:8, vai ainda mais longe ao afirmar que, se os governantes daquele tempo tivessem compreendido, não teriam crucificado “o Senhor da glória”.


Há, portanto, um paradoxo terrível: o ser humano pode agir conscientemente e, ainda assim, não compreender verdadeiramente o que está fazendo.


A Bíblia já havia previsto o homem que mata acreditando servir a Deus


Talvez exista uma passagem ainda mais próxima do problema que proponho. Jesus disse aos discípulos: “Vem a hora em que todo aquele que vos matar julgará com isso tributar culto a Deus” (João 16:2).


É difícil imaginar uma descrição mais precisa do perigo da convicção religiosa.


Jesus não descreve necessariamente pessoas que odeiam Deus. Ele descreve pessoas capazes de perseguir alguém acreditando que estão servindo a Deus.


Esse detalhe muda tudo. O perseguidor pode orar antes de perseguir. O inquisidor pode acreditar que está protegendo aquilo que é sagrado. O juiz pode pronunciar uma sentença com a consciência aparentemente tranquila. O fanático pode imaginar que seu zelo é fidelidade. O religioso pode ferir alguém e chamar sua violência de obediência.


É por isso que Paulo faz outra advertência impressionante: “Eles têm zelo por Deus, porém não com entendimento” (Romanos 10:2). Existe, portanto, na própria Escritura, uma distinção entre zelo religioso e conhecimento verdadeiro.


Nem toda paixão por Deus procede de uma compreensão correta de Deus. Nem toda certeza espiritual significa maturidade espiritual. Nem toda defesa da verdade é necessariamente feita em favor da verdade.


E talvez uma das formas mais perigosas de ignorância seja justamente aquela que se acredita iluminada. O ignorante que sabe que não sabe ainda pode aprender. Mas o ignorante absolutamente convencido de que sabe pode transformar sua ignorância em doutrina, sua doutrina em poder e seu poder em instrumento de violência


A ignorância explica, mas não necessariamente absolve


Aqui precisamos fazer uma distinção importante. Dizer que alguém “não sabe o que faz” não significa afirmar que toda pessoa esteja automaticamente inocentada de responsabilidade.


A tradição cristã refletiu profundamente sobre isso. Tomás de Aquino, por exemplo, distinguiu formas diferentes de ignorância. Há situações em que alguém realmente não possui meios razoáveis para conhecer determinada realidade, enquanto existem outras em que a pessoa poderia procurar compreender melhor, mas não o faz por negligência, interesse ou recusa.


Por isso, para Aquino, nem toda ignorância elimina a responsabilidade moral. Uma ignorância impossível de superar pode retirar culpabilidade em determinadas circunstâncias; uma ignorância alimentada voluntariamente ou mantida por negligência pode continuar sendo moralmente imputável.


Essa distinção é fundamental para compreender as palavras de Cristo. “Não sabem o que fazem” não significa: “Não aconteceu nada.” Nem: “Não existe culpa.” Nem: “A injustiça deixou de ser injustiça.”


O próprio pedido de perdão pressupõe que existe algo a ser perdoado. Se nenhuma falta houvesse ocorrido, o perdão seria desnecessário. Portanto, a frase de Cristo contém simultaneamente misericórdia e juízo. Há culpa suficiente para exigir perdão. Há ignorância suficiente para despertar compaixão.


Essa tensão é profundamente cristã. Cristo não chama o mal de bem para conseguir amar quem o pratica. Ele reconhece o mal e, ainda assim, intercede pelo agente.


Nascer em uma crença


É aqui que retornamos ao nosso cenário inicial.


Raramente começamos nossa vida intelectual diante de uma mesa completamente vazia, analisando todas as possibilidades religiosas existentes antes de escolher uma. Nós recebemos um mundo. Recebemos uma língua. Recebemos símbolos. Recebemos histórias. Recebemos interpretações. Recebemos uma determinada maneira de compreender o sagrado.


Um cristão nascido em determinado contexto provavelmente será apresentado ao cristianismo antes de conhecer profundamente o islamismo, o hinduísmo ou o budismo. Uma pessoa nascida em outra sociedade poderá experimentar justamente o contrário.


Isso não significa que todas essas religiões sejam igualmente verdadeiras. A origem social de uma crença não determina sua veracidade.


Descobrir que aprendemos uma verdade com nossos pais não torna essa verdade falsa. Assim como descobrir que alguém aprendeu um erro com seus pais não torna esse erro verdadeiro.


O que essa constatação exige de nós não é relativismo. É humildade epistemológica.


Precisamos distinguir duas afirmações: “Existe uma verdade.” e “Eu compreendo perfeitamente essa verdade.” A primeira pode ser uma convicção de fé. A segunda pode ser arrogância.


A sociedade também nos ensina o que parece plausível


Peter Berger e Thomas Luckmann mostraram, na sociologia do conhecimento, como aquilo que percebemos como “realidade” é profundamente mediado pela vida social.


Nós não interpretamos o mundo isoladamente. Família, comunidade, instituições, linguagem, educação e tradição ajudam a construir os horizontes dentro dos quais determinadas ideias parecem naturais, enquanto outras parecem absurdas.


Berger aplicaria posteriormente essa reflexão também à religião, analisando sua capacidade de oferecer sentido e uma ordem abrangente para a existência humana.


Isso ajuda a compreender por que mudar uma crença religiosa pode ser tão difícil. Às vezes não se trata simplesmente de abandonar uma ideia. Significa questionar a visão de mundo dos pais, as histórias dos avós, a autoridade dos líderes, o sentido das celebrações, a identidade da comunidade, a maneira como a pessoa interpretou suas próprias experiências e talvez até a esperança que ela possui sobre a morte.


Uma crença religiosa pode estar conectada a praticamente todas as estruturas que organizam uma vida.


Por isso, quando alguém chega de fora dizendo: “Tudo aquilo em que vocês acreditam está errado”, a reação dificilmente será puramente intelectual. A pessoa pode sentir que sua família foi atacada. Sua história. Seu povo. Sua identidade. Seu Deus.


Isso explica parte da resistência humana. Mas novamente: explicar não significa justificar. Compreender como nasce um perseguidor não significa legitimar sua perseguição. Ao contrário. Compreender o mecanismo pode nos ajudar a impedir que nos tornemos o próximo perseguidor.


O horizonte através do qual enxergamos


Hans-Georg Gadamer oferece uma contribuição filosófica especialmente importante para esta discussão. Para ele, nenhum ser humano interpreta a realidade a partir de um ponto completamente neutro.


Todos possuímos um horizonte histórico. Carregamos conhecimentos anteriores, tradições, expectativas e aquilo que Gadamer chama de “pré-juízos”, não necessariamente no sentido moralmente negativo da palavra, mas como compreensões anteriores que tornam possível qualquer interpretação.


O problema começa quando essas compreensões deixam de poder ser questionadas.


Para Gadamer, o verdadeiro encontro com aquilo que é diferente pode ampliar nosso próprio horizonte. Compreender exige diálogo, e esse diálogo pode levar ao que ele chamou de “fusão de horizontes”: o encontro no qual nossa compreensão anterior é confrontada e transformada por aquilo que encontramos.


Talvez essa seja uma das maiores dificuldades religiosas do ser humano: ouvimos o outro para compreendê-lo ou apenas esperamos nossa vez de corrigi-lo?


Há enorme diferença entre as duas coisas. Posso continuar convicto da minha fé depois de ouvir profundamente alguém que pensa diferente. Ouvir não significa converter-se à crença do outro. Compreender não significa concordar.


Mas aquele que acredita na verdade não deveria ter medo da investigação. Se minha fé só consegue sobreviver enquanto todas as outras vozes permanecem silenciadas, talvez eu não esteja protegendo a verdade. Talvez esteja apenas protegendo minha fragilidade.


O perigo de confundir Deus com a nossa ideia de Deus


Aqui começa talvez a parte mais incômoda para o cristão. Porque é muito fácil ler sobre aqueles que crucificaram Jesus e imaginar: “Eu jamais faria isso.”


Mas será que não faria?


Se tivéssemos nascido naquele tempo, naquela cidade, naquela tradição; se tivéssemos aprendido com aqueles mestres, escutado aquelas acusações, vivido dentro daquele ambiente político e religioso, de que lado estaríamos?


Todos gostamos de imaginar que reconheceríamos Cristo imediatamente. Mas os Evangelhos são perturbadores justamente porque muitas das pessoas que mais deveriam reconhecê-lo não reconheceram.


Conheciam as Escrituras. Conheciam a religião. Conheciam os rituais. Conheciam a tradição. E ainda assim algumas delas não conseguiram enxergar aquilo que estava diante de seus olhos.


É possível conhecer religião e não reconhecer Deus quando Ele contraria nossas expectativas.


Kierkegaard percebeu algo semelhante séculos depois ao criticar aquilo que chamava de “Cristandade”, uma sociedade que se considerava cristã culturalmente, mas que, segundo ele, havia tornado tão confortável a identidade cristã que já não percebia a radicalidade do cristianismo do Novo Testamento. Sua obra procurava reintroduzir o cristianismo dentro da própria Cristandade.


A crítica continua atual. Podemos defender a tradição cristã sem necessariamente possuir o caráter de Cristo. Podemos conhecer doutrinas e continuar cruéis. Podemos citar versículos e permanecer incapazes de misericórdia. Podemos falar sobre a cruz e continuar crucificando pessoas através de nossas palavras. Podemos defender o nome de Jesus de uma maneira que o próprio Jesus jamais defenderia.


Essa possibilidade deveria produzir temor em qualquer pessoa religiosa.


A fé cristã não exige relativismo, exige humildade


É importante esclarecer algo. Questionar os limites da nossa compreensão não significa afirmar que nenhuma verdade exista.


O cristianismo não diz que todas as afirmações religiosas são igualmente verdadeiras. Jesus faz declarações extraordinariamente exclusivas sobre si mesmo. A tradição cristã confessa que existe verdade, revelação, pecado, redenção e reconciliação em Cristo.


Portanto, a humildade cristã não consiste em dizer: “Não existe verdade.” Consiste em reconhecer: “A verdade não depende de mim para ser verdade, e eu não sou a própria Verdade.”


Para o cristão, Cristo é a verdade. Nós somos seus discípulos. Essa diferença é enorme.


Porque significa que jamais deveríamos confundir nossa capacidade de compreender Deus com o próprio Deus. Deus é perfeito. Minha compreensão não é. A revelação pode ser verdadeira. Minha interpretação continua humana. A Escritura pode ter autoridade. Eu continuo sendo um leitor limitado pela minha época, conhecimento, cultura, linguagem, experiências e até interesses pessoais.


Por isso, maturidade espiritual não é ausência de convicção. É a capacidade de possuir convicções profundas sem transformar a própria mente em um ídolo.


Talvez uma das orações mais maduras que um cristão possa fazer seja: “Senhor, aquilo que creio ser verdade, confirma em mim. Aquilo que compreendi errado, corrige. E aquilo que meu orgulho me impede de enxergar, mostra-me.”


Quando a certeza se transforma em violência


Existe um momento perigoso em toda crença. É quando deixamos de dizer: “Creio que isto é verdadeiro.” e começamos a pensar: “Portanto, tudo o que eu fizer para defender isso será necessariamente justo.”


Essas duas frases não são equivalentes. Uma pessoa pode defender algo verdadeiro através de métodos moralmente errados.


Pedro acreditava em Jesus quando desembainhou a espada. Sua lealdade estava direcionada à pessoa certa. O método, porém, estava errado. Cristo mandou guardar a espada.


Isso deveria nos ensinar alguma coisa. Não basta perguntar: “Estou defendendo a verdade?” Precisamos perguntar também: “Estou defendendo-a como Cristo defenderia?”


Porque é possível possuir uma ortodoxia aparentemente correta acompanhada de um espírito profundamente anticristão.


Paulo chegou a perseguir cristãos imaginando agir em fidelidade religiosa. Mais tarde, recordaria ter sido blasfemo e perseguidor, acrescentando que havia agido “ignorantemente, na incredulidade” (1 Timóteo 1:13).


O perseguidor tornou-se apóstolo. E talvez justamente por isso Paulo conhecesse tão bem o perigo do zelo sem conhecimento.


Ele próprio havia sido a prova viva de que uma pessoa pode possuir certeza religiosa, educação teológica, disciplina moral e enorme zelo e, ainda assim, estar perseguindo aquilo que Deus está fazendo.


E se eu tivesse nascido do outro lado?


Essa talvez seja a pergunta mais introspectiva de todo este argumento: e se eu tivesse nascido do outro lado?


Outra família. Outro país. Outra língua. Outro templo. Outra tradição. Outros livros. Outros mestres. Outra história.


Eu teria chegado exatamente às mesmas conclusões às quais cheguei hoje?


Talvez sim. Talvez não. Nunca saberemos completamente. Mas essa pergunta possui uma função espiritual importante: ela destrói a arrogância. Não a fé. A arrogância.


Ela me obriga a reconhecer que muitas pessoas das quais discordo não acordaram pela manhã decididas a abraçar uma mentira. Elas também procuram significado. Também querem compreender a existência. Também temem a morte. Também amam suas famílias. Também possuem perguntas. Também possuem experiências. Também podem estar sinceramente convencidas.


E sinceridade não é critério suficiente de verdade. Mas perceber a sinceridade do outro muda a forma como eu o trato. Meu objetivo deixa de ser derrotá-lo. Passa a ser encontrá-lo como ser humano.


Talvez seja isso que o perdão da cruz nos obrigue a enxergar


Voltemos agora ao homem preso no país estrangeiro. Ele pregou aquilo em que acreditava. Foi considerado ofensivo. Foi julgado. Condenado. Talvez seus carcereiros estejam absolutamente convencidos de que fizeram o correto.


E então as palavras de Jesus assumem uma dimensão assustadoramente concreta: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”


Nesse momento, a oração deixa de ser apenas uma bela frase escrita no Evangelho. Ela se torna uma exigência moral.


Porque perdoar alguém que sabe que errou e implora misericórdia já é difícil. Perdoar alguém que acredita ter feito bem ao ferir você é muito mais difícil.


É perdoar aquele que talvez nunca peça perdão porque sua consciência ainda o absolve.


Cristo fez isso na cruz. E o cristão que contempla a cruz não pode apenas admirar esse perdão. Ele é chamado a ser transformado por ele.


A linha entre o mártir e o inquisidor


Portanto, quando você, naquele cenário, é preso por sua crença, a palavra de Cristo não está apenas presente em seu martírio.


Ela está também no assombroso e contraintuitivo perdão que você é chamado a oferecer ao seu carcereiro.


Não um perdão arrogante. Não aquele que pensa: “Eu sou iluminado, e você é ignorante.” Mas um perdão que nasce de uma consciência muito mais perturbadora: em outras circunstâncias, em outra cultura, sob outro nome, talvez eu pudesse ter sido o juiz, e ele, a vítima.


Talvez tivéssemos simplesmente trocado de lugar.


“Pai, perdoa-lhes”, porque a linha entre o inquisidor e o mártir pode, algumas vezes, ser tão tênue quanto a geografia do nascimento, a educação recebida, a história de um povo e as certezas que jamais nos ensinaram a questionar.


Não sabemos quem seríamos caso tivéssemos nascido dentro da narrativa do outro.


E reconhecer isso não destrói a fé. Talvez a purifique. Porque a verdadeira fé não precisa da arrogância para permanecer de pé.


Quando a cruz se transforma em espelho


É fácil olhar para a cruz e perguntar: “Como puderam fazer isso com Jesus?” Muito mais difícil é perguntar: “Em quais circunstâncias eu seria capaz de fazer o mesmo?”


Esse é o momento em que a cruz deixa de ser apenas um acontecimento que julgamos do lado de fora e se transforma em espelho.


Talvez eu jamais pregasse fisicamente alguém numa cruz. Mas quantas vezes condenei antes de compreender? Quantas vezes transformei desconhecimento em certeza? Quantas vezes ouvi apenas o suficiente para responder, nunca o suficiente para entender?


Quantas vezes considerei minha interpretação inseparável da vontade de Deus? Quantas vezes meu orgulho recebeu o nome de “zelo”? Quantas vezes minha dureza recebeu o nome de “fidelidade”? Quantas vezes minha incapacidade de amar foi apresentada como “defesa da verdade”?


E quantas vezes aqueles que condenei poderiam, olhando para mim, dizer exatamente a mesma coisa?


Talvez o verdadeiro perigo religioso não esteja somente em acreditar numa mentira. Talvez esteja também em possuir alguma verdade e concluir, por causa dela, que já não precisamos de humildade.


“Eles não sabem o que fazem”


Há algo profundamente trágico nessa frase.


Jesus não diz: “Eles não fazem nada.” Eles fazem. Pregam os cravos. Dividem as vestes. Participam da morte. Existe realidade. Existe sofrimento. Existem consequências. Mas existe também desconhecimento.


Talvez essa seja uma das descrições mais profundas da humanidade: fazemos muito mais do que compreendemos.


Ferimos pessoas sem compreender todas as feridas que produzimos. Transmitimos crenças sem investigar suas origens. Repetimos julgamentos herdados. Defendemos tradições que raramente submetemos à mesma análise que exigimos das tradições alheias. Construímos certezas dentro de horizontes pequenos e depois as chamamos de visão completa.


Somos criaturas finitas tentando compreender um Deus infinito. E justamente por isso a fé deveria produzir menos arrogância, não mais.


Quanto maior Deus se torna diante de mim, menor deveria parecer minha pretensão de tê-lo encerrado completamente dentro das minhas categorias.


O cristão diante do diferente


Talvez o verdadeiro teste da nossa fé não seja a forma como tratamos aqueles que concordam conosco. Isso é relativamente fácil.


O verdadeiro teste surge diante daquele cuja visão de mundo nos desafia.


Posso acreditar que ele está errado e ainda amá-lo? Posso apresentar aquilo em que creio sem desumanizá-lo? Posso defender Cristo sem esquecer o caráter de Cristo? Posso ouvir sem medo? Posso admitir quando não sei? Posso corrigir e também ser corrigido? Posso reconhecer que minha convicção não me torna infalível?


Se a resposta for não, talvez nossa fé ainda tenha aprendido pouco com a cruz.


Porque aquele que afirmou ser o caminho, a verdade e a vida foi também aquele que, diante de seus algozes, orou: “Pai, perdoa-lhes.”


Cristo não precisou relativizar a verdade para exercer misericórdia. E nós também não precisamos.


Considerações finais


No fim, talvez “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” seja não apenas uma oração pelos soldados ao redor da cruz. Talvez seja também uma revelação sobre a condição humana.


Sobre nossa capacidade de confundir convicção com conhecimento. Tradição com verdade. Zelo com sabedoria. Religião com Deus. Poder com justiça.


Talvez seja também um alerta para qualquer pessoa que acredita possuir respostas. Inclusive para mim. Inclusive para você. Inclusive para o cristão.


A verdadeira fé não começa necessariamente quando desaparecem todas as perguntas. Às vezes ela amadurece quando deixamos de temê-las.


Quando somos capazes de olhar para aquilo em que acreditamos e perguntar não apenas: “Tenho certeza?”, mas: “Por que tenho certeza?”, “Minha interpretação suporta ser examinada?”, “Minha maneira de defender aquilo em que creio se parece com Cristo?”, “Se eu estiver errado em alguma coisa, ainda sou humilde o suficiente para ser corrigido?”


E talvez a pergunta mais difícil de todas: “Se eu estivesse do outro lado da história, reconheceria Cristo?”


A fé cristã não precisa responder a essas perguntas com medo. Se Cristo é a verdade, a verdade não será ameaçada por nossa honestidade. O que pode ser ameaçado é nosso orgulho. E talvez seja exatamente isso que precisa morrer.


Porque, no fim, a verdadeira fé começa onde termina a pretensão de possuir Deus como se Ele coubesse inteiramente dentro dos limites da nossa compreensão.


Ela começa quando reconhecemos que existe uma diferença infinita entre crer na Verdade e acreditar que somos incapazes de estar enganados sobre ela.


E talvez seja diante dessa percepção que as palavras da cruz deixem de ser apenas dirigidas aos homens que crucificaram Jesus dois mil anos atrás. Talvez elas atravessem os séculos e alcancem todos nós:


“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”


Porque, em mais momentos do que gostaríamos de admitir, nós também não sabemos.



Referências para aprofundamento

Bíblia Sagrada: Lucas 23:34; João 16:2-3; Atos 3:17; 1 Coríntios 2:8; Romanos 10:2; 1 Timóteo 1:13.

TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. Parte I-II, especialmente as questões sobre voluntariedade, ignorância e responsabilidade moral.

BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas. A Construção Social da Realidade.

BERGER, Peter L. O Dossel Sagrado (The Sacred Canopy).

GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método.

KIERKEGAARD, Søren. Escritos sobre cristianismo, indivíduo e crítica à “Cristandade”










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